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Nova estratégia de combate à dengue mostra resultados

30/01/2026
Iniciativa já beneficia cinco milhões de pessoas


A dengue consolidou-se como um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil, afetando milhões de pessoas todos os anos e sobrecarregando o sistema de saúde, especialmente em períodos de surtos epidêmicos. Apesar das campanhas educativas, do uso de inseticidas e das ações de eliminação de criadouros, o controle do Aedes aegypti tem se mostrado limitado diante do crescimento urbano desordenado, das mudanças climáticas e da resistência do mosquito a métodos químicos tradicionais.

 Esse cenário evidenciou  que as estratégias convencionais, embora importantes, já não eram suficientes para conter de forma eficaz a disseminação da doença e o desafio foi aceito por pesquisadores da FIOCRUZ, que desenvolveram uma metodologia revolucionária, que utiliza mosquitos Aedes aegypti inoculados com a bactéria Wolbachia, que impede ou reduz significativamente a capacidade do mosquito de transmitir a dengue e outras arboviroses, como Zika e chikungunya, à população.

A técnica do Projeto Wolbito no Brasil: um avanço biotecnológico no combate à dengue
O projeto tomou o nome de Wolbito, uma junção entre Wolbachia e “mosquito” e mais tarde passou a denominar a empresa Wolbito do Brasil, criada em 2023 em parceria com o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o World Mosquito Program (WMP), que hoje dissemina essa prática no país. 

Como funciona a técnica
O método baseia-se na introdução em mosquitos Aedes aegypti, da bactéria Wolbachia pipientis, que ocorre naturalmente em mais da metade das espécies de insetos do mundo, mas não está presente no Aedes aegypti. Quando introduzida, a bactéria age sobre o ciclo de vida dos vírus da dengue, Zika e chikungunya, dificultando sua multiplicação dentro do mosquito. Assim, quando um mosquito infectado com Wolbachia pica uma pessoa, a probabilidade de transmitir esses vírus é drasticamente reduzida. 

Depois de produzidos em biofábricas, os mosquitos Wolbito são liberados em áreas urbanas com alto risco epidemiológico e acabam se reproduzindo com os mosquitos selvagens, passando a Wolbachia para suas crias, o que faz com que a bactéria se espalhe entre a população local de Aedes aegypti. Com o tempo, a presença da Wolbachia torna-se dominante, levando à redução da capacidade dos mosquitos de transmitir arboviroses. 

Importante destacar que o método não envolve modificações genéticas nos mosquitos; a Wolbachia é simplesmente introduzida de forma natural, e a bactéria não representa risco para seres humanos, animais de estimação ou o meio ambiente. Várias avaliações de risco independentes classificaram globalmente essa técnica como de risco insignificante.

Impactos e resultados
Em diferentes localidades brasileiras onde a técnica foi implementada, os efeitos têm sido notáveis. Em Niterói (RJ), onde a cobertura por mosquitos com Wolbachia atingiu níveis elevados, a incidência de dengue caiu 90%, em comparação com as expectativas baseadas em anos anteriores, mesmo durante períodos epidêmicos intensos. 

Por ser uma estratégia autossustentável, após sua implantação em uma área, a necessidade de novas liberações diminui com o tempo à medida que a Wolbachia se estabelece na população de mosquitos. 

Integração com políticas públicas
O Ministério da Saúde brasileiro incorporou a técnica Wolbachia como uma das ferramentas de combate às arboviroses, coordenando sua implantação em diferentes espaços. A experiência brasileira demonstra que a integração entre ciência, inovação tecnológica e políticas públicas pode gerar resultados concretos no enfrentamento de doenças endêmicas. 

A relevância do projeto foi reconhecida internacionalmente e o pesquisador-lider, Luciano Moreira, foi incluído pela revista científica Nature  como um dos dez cientistas mais influentes do mundo em 2025.

O Projeto Wolbito não apenas contribui para a redução da dengue, mas também reforça a importância do investimento contínuo em pesquisa científica como instrumento fundamental para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população.

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