Por que o Brasil não sofre grandes terremotos?

Nas últimas semanas, fortes terremotos voltaram a chamar a atenção para a América do Sul.
Na Venezuela, os terremotos de 24 de junho de 2026 tiveram magnitudes de 7,2 e 7,5 e provocaram centenas de mortes, milhares de feridos e extensos danos materiais.
Em 10 de agosto de 2026, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia, provocando mortes, destruição de prédios e danos à infraestrutura. O epicentro foi localizado na região de San José del Palmar, no departamento de Chocó. O tremor foi sentido em várias cidades colombianas e em países vizinhos.
Até 11 de agosto, as autoridades colombianas contabilizavam mais de uma centena de mortos e centenas de feridos. O terremoto também provocou desabamentos e deixou milhares de imóveis danificados.
Os episódios evidenciam a vulnerabilidade sísmica de grande parte do norte da América do Sul e reforçam a importância do monitoramento geológico e da preparação das populações que vivem em regiões sujeitas a terremotos.
Por outro, lado, isso nos fez perguntar: se Colômbia e Venezuela estão tão próximas do Brasil, por que o território brasileiro não costuma sofrer grandes tremores?
A diferença entre a estabilidade do Brasil e a vulnerabilidade de vizinhos como Colômbia e Venezuela reside na posição geográfica do nosso país, em relação às placas tectônicas.
A superfície sólida da Terra não é uma estrutura única. Ela é dividida em grandes blocos chamados placas tectônicas, que se movimentam lentamente sobre uma camada mais profunda e quente do planeta.
Os movimentos podem fazer com que as placas se afastem, colidam ou deslizem umas em relação às outras. E é justamente nessas regiões de contato que acontecem os terremotos mais fortes.
O Brasil está localizado quase inteiramente no interior da Placa Sul-Americana, região caracterizada por uma crosta antiga, espessa e geologicamente estável. Como o Brasil está longe das bordas da Placa Sul-Americana, a energia produzida pelos movimentos das placas perde força antes de chegar ao nosso território.
Isso significa que o país está distante das principais zonas de encontro entre grandes placas tectônicas e, por isso, a atividade sísmica brasileira é, em geral, muito menor do que aquela observada em países localizados nas bordas das placas.
Em contrapartida, Colômbia e Venezuela ocupam posições altamente instáveis do ponto de vista geológico, na região oeste da América do Sul, onde se situa a Cordilheira dos Andes, uma das maiores cadeias montanhosas do planeta.
A formação dos Andes está diretamente relacionada à interação entre a Placa de Nazca e a Placa Sul-Americana, num movimento que acumula enormes quantidades de tensão nas rochas. Quando parte dessa tensão é liberada de maneira repentina, ocorre um terremoto.
Os efeitos de um terremoto dependem de diversos fatores, como a o a profundidade do epicentro, a distância das áreas habitadas, o tipo de solo, a qualidade das construções e a duração do tremor.
Especialistas destacam que os terremotos colombianos e os tremores registrados anteriormente na Venezuela possuem características tectônicas e profundidades diferentes.
Ou seja, a proximidade geográfica não significa necessariamente que um terremoto tenha causado o outro. Eles refletem, principalmente, a existência de uma região geologicamente ativa.
Mas isso significa que o Brasil está completamente protegido contra terremotos?
Não.
Essa é uma ideia muito comum, mas incorreta. Embora esteja no interior de uma placa tectônica, o Brasil também registra terremotos, os chamados terremotos intraplaca, que acontecem dentro das próprias placas.
Isso ocorre porque as rochas do interior da placa não são completamente imóveis. Existem antigas falhas e fraturas geológicas que podem eventualmente se movimentar. Quando isso acontece, ocorre a liberação de energia acumulada e um terremoto.
O Brasil possui, portanto, atividade sísmica. A diferença é que os grandes terremotos são muito menos frequentes.
Segundo o Serviço Geológico do Brasil, terremotos de magnitude superior a 7 são estimados em aproximadamente um evento a cada 500 anos no Brasil.
No Chile, em contraste, terremotos dessa magnitude podem ocorrer, em média, a cada três anos.
Essa comparação ajuda a compreender por que a população brasileira geralmente não tem lembrança de grandes terremotos.
Mesmo assim, alguns tremores brasileiros já foram suficientemente fortes para serem sentidos em grandes áreas.
Um exemplo histórico ocorreu em 1955, na região da Serra do Tombador, em Mato Grosso. O terremoto teve magnitude estimada em torno de 6,3 e é considerado um dos maiores já registrados no território brasileiro.
Como ocorreu em uma área pouco habitada, seus impactos sobre a população foram relativamente pequenos. E Isso demonstra outro aspecto importante dos terremotos: o risco não depende apenas da força do fenômeno natural. Um terremoto de magnitude elevada em uma área desabitada pode provocar menos vítimas do que um terremoto menor localizado próximo a uma grande cidade.
Por isso, estudar terremotos não significa apenas estudar as placas tectônicas. É necessário também analisar população, infraestrutura, qualidade das construções e capacidade de resposta das autoridades.